Aqueles Dois
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Aqueles Dois

Da rotina de uma “repartição” – metáfora para qualquer ambiente inóspito e burocrático de trabalho, revela-se o desenvolvimento de laços de cumplicidade entre dois de seus novos funcionários, Raul e Saul. É que “num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra”. No entanto, essa relação acaba gerando incômodo nos demais colegas de profissão. O espetáculo Aqueles Dois foi criado a partir do conto homônimo do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu (1948-1996).

O autor do conto, na obra e no espetáculo
O conto, publicado em sua primeira versão em “Morangos Mofados” (Brasiliense, 1982), faz parte de “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século” (curadoria de Italo Moriconi, Objetiva, 2000). Nele, como praticamente em toda produção literária de Caio Fernando Abreu, são múltiplas as citações ou simples menções a artistas e obras de áreas diversas, locações urbanas, letras de músicas, filmes, épocas, onde o autor mistura, despudoradamente, seus mundos biográfico e ficcional.

Texto e espetáculo possibilitam uma diversidade de leituras e percepções sobre o universo “daqueles dois”. Os atores revezam-se nos papéis de Raul e Saul, narram trechos, sugerem os outros personagens da “repartição” e inserem suas próprias referências e leituras para o texto de Caio. Há ainda no cenário, no figurino, na música e no texto uma intencional simultaneidade abrangente a várias décadas.O jogo corporal entre atores, o trabalho com a fala, a relação com o espaço e os objetos, recebeu influência dos temas deflagradores do Observatório de Criação da Cia. Luna Lunera: o contato improvisação e o método das ações vocais.

Processo criativo
Em maio de 2007, a Cia. Luna Lunera propôs internamente um grupo de estudos sobre Contato Improvisação (técnica corporal criada por Steve Paxton) e o Método das Ações Físicas e Vocais (desenvolvido por Stanislavski), tendo respectivamente Cláudio Dias e Odilon Esteves como mediadores. Como base às primeiras vivências da pesquisa, nessa fase eram utilizados alguns textos aleatórios. Focou-se posteriormente na exploração do conto Aqueles Dois, de Caio Fernando Abreu, descobrindo nele suas instigantes qualidades épico-dramáticas e uma inspiração para potencial montagem.

O mote inicial de estudos (Contato Improvisação e Ações Vocais) acabou por deslocar-se para um outro propósito: investir num exercício interno de direção e dramaturgia, a ser desenvolvido pelos atores do grupo. Cada ator teria uma semana para desenvolver seu projeto de direção. Ao final das quatro semanas, um único diretor seria escolhido. Nessa fase os envolvidos no processo eram: Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves e Zé Walter Albinati. Tendo este último optado por se dedicar exclusivamente ao núcleo de direção e dramaturgia, convidou-se Rômulo Braga para compor o quarteto de atores em cena.

Esse coletivo partiu de improvisações e imersões na obra de Caio, propôs, sobrepôs e experimentou roteiros. Não houve a “eleição” de um único diretor. O processo transformou-se num exercício de direção e dramaturgia compartilhadas.

Formatou-se aí o que veio se chamar Observatório de Criação, projeto viabilizado pelo Fundo Estadual de Cultura de Minas Gerais, cujo propósito era o de abrir à comunidade os procedimentos criativos da Cia., com todos os seus impasses e soluções processuais. A criação do espetáculo é, portanto, assinada literalmente “a dez mãos”, e contou ainda, de fato, com a contribuição do público interessado, presente a cada sessão aberta do Observatório, cujos feedbacks funcionaram como autênticos norteadores e ainda se renovam ao longo de novas temporadas.

Trajetória de “Aqueles Dois”
O espetáculo estreou em novembro de 2007, em Belo Horizonte, e vem construindo uma ampla trajetória desde então. Apresentou-se em importantes festivais nacionais e internacionais no Brasil (Festival de Curitiba/PR – Mostra Contemporânea; FIT-BH – Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte/MG; Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto/SP; Fiac – Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia – Salvador/BA; Festival Recife do Teatro Nacional – Recife/PE; Filo – Festival Internacional de Londrina – Londrina/PR; Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente/SP; Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília/DF) e cumprido longa temporada no Sesc Avenida Paulista – São Paulo/SP (2008), na Campanha de Popularização do Teatro e da Dança – Belo Horizonte/MG (2009) e no Centro Cultural Banco do Brasil – Rio de Janeiro/RJ (2010). Em 2010, o espetáculo foi apresentado em 44 cidades e 14 estados através do Palco Giratório, do Sesc Nacional. Neste mesmo ano, ganhou uma versão em espanhol, Aquellos Dos, e foi apresentado no 3° Encuentro de Creadores Teatrales Independientes em Santiago de Querétaro, México.

Aqueles Dois foi contemplado no 13º Prêmio Sesc-Sated/MG nas categorias Melhor Espetáculo e Melhor Direção; no 5º Prêmio Usiminas-Sinparc nas categorias Melhor Espetáculo, Melhor Direção e Melhor Ator (Rômulo Braga); foi indicado ao Prêmio Shell São Paulo 2009 nas categorias de Melhor Direção, Melhor Cenário e Melhor Iluminação, tendo recebido este último.

  • Data
    01 de outubro de 2011
  • Local
    Teatro da Ópera - Ouro Preto / MG
  • Direção
    Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves, Rômulo Braga e Zé Walter Albinati
  • Elenco
    Cláudio Dias, Guilherme Théo, Marcelo Souza e Silva e Odilon Esteves
  • Outras Informações