O Amor e Outros Estranhos Rumores
\

O Amor e Outros Estranhos Rumores

Montagem do Grupo 3 de Teatro, baseada em textos do principal escritor brasileiro dedicado exclusivamente ao gênero fantástico, faz curta temporada no Sesc Palladium, de 16 a 18 de setembro

O projeto Teatro em Movimento, realizado pela Rubim Produções, completa 10 anos em 2011, trazendo a Belo Horizonte montagens de destaque na cena teatral brasileira. De 16 a 18 de setembro, apresenta, no Sesc Palladium, o espetáculo “O Amor e Outros Estranhos Rumores”, peça com importantes profissionais mineiros em sua ficha técnica. O texto é do escritor Murilo Rubião (1916-1991), a direção de Yara de Novaes e o elenco conta com Débora Falabella, e Rodolfo Vaz, ator convidado especialmente para esse trabalho, além dos atores Priscila Jorge e Maurício de Barros.

A montagem, que é comemorativa dos cinco de atividades do Grupo 3 de Teatro, encena três textos de Rubião, mestre brasileiro do realismo fantástico: O Contabilista Pedro Inácio, cujo personagem contabiliza os custos de um amor; Bárbara, em que um marido resignado se vê diante dos pedidos incessantes e nada comuns da esposa, que engorda a cada desejo satisfeito; e (Três nomes para) Godofredo, uma interpretação aguda sobre o casamento e a solidão. Risíveis e absurdas, essas histórias compõem um espetáculo que busca expressar o quanto há de ordinário e, ao mesmo tempo, extraordinário em nossas vidas.

A peça tem cenografia de André Cortez, trilha sonora de Morris Picciotto, iluminação de Fabio Retti, e Fábio Namatame assina figurinos e visagismo. A adaptação ficou a cargo de Silvia Gomez, autora de O Céu Cinco Minutos Antes da Tempestade. A direção de produção é de Gabriel Fontes Paiva.

O projeto Teatro em Movimento completa 10 anos em 2011 e nesta edição estréia com o patrocínio da FIAT, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura e com o apoio do Instituto Unimed por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

A obra de Murilo Rubião permaneceu praticamente desconhecida para o grande público durante mais de três décadas. A reedição do seu livro de contos O Pirotécnico Zacarias, em 1974, o tiraria do esquecimento, transformando-o praticamente em um best-seller nacional, admirado pelos leitores e por intelectuais do porte de Mário de Andrade que, em 1943, escreveu que “o mais estranho é o seu dom forte de impor o caso irreal . O mesmo dom de um Kafka : a gente não se preocupa mais, é preso pelo conto, vai lendo e aceitando o irreal como se fosse real, sem nenhuma reação mais”.

Os contos e o espetáculo, pela diretora Yara de Novaes
Os três contos – Memórias do Contabilista Pedro Inácio; Os Três nomes de Godofredo e Bárbara – tem em comum a questão do amor. No primeiro, o amor contabilizado como uma lista de Excel, o protagonista diz “Jandira me custou tantas cartelas de aspirina e tantas passagens de bonde, me saiu por tantos contos de reis”. Um homem que está sempre contabilizando seus ganhos e perdas no amor que nunca se realiza, que não satisfaz. No segundo, um homem meio Barba Azul, colecionador de esposas que vai matando, em busca de uma felicidade/um amor perdidos na memória. No terceiro, o amor de um marido pela esposa alienada num universo próprio e narcísico, insaciável, a esposa que não o vê senão como fonte de satisfação material.

De qualquer maneira, são três formas de amor sem sucesso, fadadas desde o início de cada conto ao fracasso e à infelicidade, temas próprios de Rubião. Além desse link do amor também queríamos criar elementos de ligação, uma conexão entre esses personagens e por isso um prólogo e um elemento absurdo – alguém com cabeça de coelho – como personagem entre as cenas, como construtor e mediador da cena. Essa estranheza de um coelho, algo parecido com o que David Lynch fez no filme Império dos Sonhos, surgiu de um quarto conto de Rubião, Teleco, o coelhinho. E ele sugere esse absurdo, o que não se pergunta e o que não se responde, tônica do autor que tentamos materializar.

A cenografia também se fez inspirada na lógica mágica que o autor desenvolve em seus contos. A repetição e a tendência ao infinito, quase como uma condenação sofrida pelas personagens foi o nosso motivo maior. Assim, junto como cenógrafo André Cortez e o iluminador Fabio Retti, escolhemos um espaço que se fecha e se abre progressivamente, e repetidamente, podendo se fechar novamente, num movimento circular, passando por uma simulação de um corredor encontrado nos caminhos que Murilo imprime na sua obra.

Conhecer um pouco mais da vida e das idéias de Murilo Rubião, através das entrevistas que lemos, nos fez ter a certeza de que várias de suas personagens são quase simulacros do próprio escritor. Isso nos deu uma pista muito interessante para a composição dos figurinos e da maquiagem: Pedro Inácio, Godofredo e o Marido de B. seriam feitos do mesmo barro, teriam a mesma linhagem do contista. Terno, bigode, óculos e certo ar dos anos 50. Mas precisávamos dar a eles uma camada mais alegórica. Foi assim que chegamos ao imaginário delirante das cidades retratado por George Grosz em seus quadros e aos retratos de Modigliani, com suas figuras humanas monótonas e rígidas, com uma “expressão de muda aceitação da vida”, nas palavras do próprio pintor. Fabio Namatame também cunhou as roupas femininas com o mesmo raciocínio de correspondência entre realidade e alegoria.

O universo muriliano, apesar da precisão e clareza do texto, é essencialmente imagético. Entretanto, essa figuração, como nas artes plásticas, é desprovida de compromisso com a realidade que vemos. Inicialmente, o músico e parceiro Morris Picciotto sugeriu que tudo ocorresse em silêncio, só com as falas. Porém, na cena, a música e a intervenção sonora revelaram-se essenciais na criação de parte dessas “imagens visuais”, apoiando a elaboração do universo fantástico. Stravinsky, Varese, Sex Pistols com sua iconoclastia, os sons da natureza e do nosso cotidiano serviram de referência e a sonoridade acabou ganhando status de personagem.

A composição das personagens foi um trabalho de grande detalhamento. Os atores vão da narração ao dramático sem nenhum apoio ou degrau. O discurso direto e o indireto compõem a natureza das falas das personagens criando níveis diferentes de significação, mas convivendo naturalmente. Isso exige um raciocínio que abandone a lógica naturalista e os psicologismos próprios dela. A metamorfose se dá no discurso, no corpo, na relação com os objetos, com todas as circunstâncias que ajudam a compor o universo onírico. O ator precisa ter inteligência cênica para saber que sua personagem está em todas as coisas que existem no palco. Débora Falabella, Mauricio de Barros, Priscila Jorge e Rodolfo Vaz fazem isso com grande talento e, parafraseando Mario de Andrade, têm o dom forte de impor o caso irreal.

  • Data
    de 16 a 18 de setembro de 2011
  • Local
    Sesc Palladium - Av. Augusto de Lima, 420, Centro - Belo Horizonte / MG
  • Direção
    Yara de Novaes
  • Elenco
    Débora Falabella, Mauricio de Barros, Priscila Jorge e Rodolfo Vaz
  • Outras Informações